Apoio a Familiares

A Dependência de substâncias psicoactivas, lícitas, incluindo o álcool, e as ilícitas no seio famíliar, é um fenómeno que afecta, directa ou indirectamente, todos os membros, incluindo as crianças, com consequências devastadoras, caso não sejam tomadas medidas que visem atenuar e/ou interromper a progressão da dependência. Na maioria dos casos, para os membros da família é extremamente difícil detectar sintomas numa fase inicial.

Aqueles indivíduos que sofrem de dependência de substâncias psicoactivas, assim como alguns membros da família, só realizam de facto, que existe um problema serio quando a situação atinge proporções graves – fora do controlo.

O dependente utiliza todos os meios possíveis e estratégias disponíveis ao seu alcance para atingir os fins relacionados com a doença (dinheiro e substâncias que permitam satisfazer as suas necessidades). Com a agravante de também a família (pessoas significativas) passarem por uma fase crítica e/ou confusa porque são afectados, directa ou indirectamente, pelo problema. Significa que também adoptam comportamentos problemáticos, disfuncionais e facilitadores que promovem e contribuem para a progressão da dependência. Não se aborda o assunto porque não existe um plano, existem promessas. Na dependência de substâncias não existem culpados, existe apoio e soluções.

Obviamente, existem casos e situações diferentes uns dos outros. Desde o indivíduo que é dependente de substâncias psicoactivas, receitadas pelo medico, ao individuo que rouba em casa ou na rua para a sustentar a dependência de substancias ilícitas (ex. cocaína e heroína). Todavia a família e amigos, sem excepção, experimentam e/ou conhecem a impotência; a obsessão e a compulsão; a negação e a ambivalência, o sentimento de culpa e a vergonha, baixa auto estima, a raiva e o ressentimento, o medo, a depressão, a ansiedade e o isolamento social.

O problema pode atingir proporções gravíssimas se não for abordado por profissionais competentes. A progressão da dependência pode ser interrompida, sem violência, castigo, punição através da comunicação, do compromisso e de um Plano elaborado em equipa.

Apresentamos alguns mecanismos mais frequentes de defesa (comportamentos que sustentam e promovem a dependência) observados e adoptadas pelos dependentes.
Desculpas generalizadas comuns verbalizadas pelo dependente  – “Consumo drogas e álcool porque não sou feliz…” “Consumo drogas porque não tenho dinheiro suficiente…” “Consumo drogas porque sinto-me deprimida…” “Consumo drogas e álcool porque tenho problemas no trabalho…” “Consumo drogas e álcool porque ninguém gosta de mim…”

 Culpar os outros  – O dependentes adopta a abordagem da culpa e do ressentimento direccionando o alvo da sua frustração para os outros (família) à sua volta. Os outros são os culpados pelas consequências da dependência. Culpar permite desenvolver ressentimentos, por vezes irracionais e desmedidos. Permite colocar o centro do problema nos outros em vez de si mesmo. Culpar pode interferir na relação de toda a família e promover a separação e o isolamento. Algumas afirmações mais comuns “ De certeza que também consumiam drogas se tivessem o mesma mulher que eu…” “Consumo drogas e por causa do meus pais…”Consumo drogas e álcool porque o meu trabalho é muito stressante…”

 Considerações problemáticas e desproporcionadas pelo dependente  – Fazer considerações exageradas e distorcidas, permite desviar o foco da atenção de forma a evitar assumir responsabilidade e resolver o problema. “ Não vou à consulta porque não gosto da forma como falam comigo…” ou “Não vou às reuniões dos grupos de ajudamutua porque aquilo é uma seita religiosa e antiquada.” “ Uns dizem uma coisa e outros dizem outra…ninguém percebe nada disto…

Optimismo exagerado  – Evita (Fuga) enfrentar a realidade das consequências da dependência. “Agora já estou melhor e consigo permanecer sóbrio, as minhas próprias custas sem a ajuda de ninguém…” “Agora que consegui não permito que ninguém interfira na minha vida…” Ninguém recupera sozinho.

Mentira  – Confunde, distorce e permite desviar a atenção do real comportamento problemático. Afirmar algo que não corresponde á verdade. Omitir/desonestidade – não revelar os assuntos importantes “fazer uso de meias verdades”. Agradar/Concordar – apresentar boas ideias mas não ter intenção e ou responsabilidade de as seguir ou pô-las em prática.

Ridicularizar – Pôr os outros para baixo; humilhar, desvalorizar e desviar o foco do comportamento problemático – dependência.

Ajuizar  – “Ninguém se importa comigo.” e/ou “Nunca irei conseguir superar a dependência…”  Continuar na dependência, manter a raiva e o ressentido.

Ser especial e diferente  – “Ninguém me consegue compreender….” “Mas tu não és gay, casado, adoptado, ou dependente!!…” “Como é que podes compreender a minha situação?! Tu és homem/mulher/preto/branco/esperto/estúpido/jovem/mais velho…”

 Insinuar Procurar as “fraquezas” de forma a obter algo consentimento dos outros, como pode controlar os outros, usá-los em seu beneficio e controlar e manter a dependência. Por ex. “És pessoa que gosto mais… que me percebe melhor…”

Distracção  (mudando o assunto) – “Então, se a minha dependência afecta a família… também me sinto afectado pela tua irresponsabilidade e ausência…” Se sou dependente é porque os meus amigos também usam drogas e álcool…toda a gente faz, é normal.”

Minimizar  – “ Só bebo 2 cervejas….” e “Só consumo drogas  de vez em quando…” “Os outros são piores, eles injectam-se…eu  não faço nada disso. É o médico que receita a medicação.”

Generalizar / vago  – Não ser específico de forma a evitar ser confrontado com as consequências dos seus comportamentos disfuncionais e irracionais. “Talvez…”, “De vez em quando…”, “Acho que sim, mas…”, “Ocasionalmente…Provavelmente…”

Hostilidade /agressividade  – Intimidar e assustar a família (dinâmicas de poder) de forma que não seja contrariado. Tem sempre razão.

Jogo da vitima  – Adoptar o papel de vítima. “Não sou capaz…” “É muito difícil…” “Vai magoar-me…”

Viver um “drama” / Excitação  – É uma forma de distracção que permite não se centrar em si mesmo. Não tem tempo para se tratar da dependência.

Segredos  – Não permite dar-se a conhecer de forma a não receber ajuda da família e ou amigos. Vive um mundo à parte.

Rigidez no auto conceito e imagem  – Desculpas para não mudar de atitudes e comportamentos – “Eu sou assim e não vou mudar a minha maneira de ser.”

Grandiosidade  – Sensação falsa de poder de forma a manter os outros afastados. “Eu só consumia cocaína em grandes quantidades. Tinha tudo aquilo que queria… e faço aquilo que bem quero. Ninguém manda em mim e não tenho de dar satisfações a ninguém sobre aquilo que consumo ou faço porque o dinheiro é meu.”

Racionalizar  – Justificações e Desculpas, desculpas atrás de desculpas de forma a manter a dependência (Ilusão).

Como é evidente, este tipo de mecanismos é abordado e avaliado, na terapia, baseado na responsabilização, no respeito, honestidade, empatia e através do feedback construtivo e empatia.

 

João Alexandre Rodrigues

Addiction Counselor

GAT - Gabinete de Apoio Terapêutico - Apoio na Manutenção da Recuperação